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O número saiu do Banco de Portugal e está a deixar muitas famílias em alerta. Por cada 100 euros que entram em casa, depois de impostos e pagamento de créditos, os portugueses já devem 71,5 euros ao banco. É o valor mais alto desde 2024 — e a tendência está a piorar.
O peso do endividamento dos particulares subiu pelo terceiro trimestre seguido. A dívida total das famílias portuguesas já chega aos 176,8 mil milhões de euros. E o motor principal tem nome: o crédito à habitação.
O que mudou? Porque é que o rácio voltou a subir depois de mais de uma década a cair? E o que pode fazer hoje para travar a bola de neve na sua conta?
Banco de Portugal confirma: endividamento das famílias em alta
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Os dados foram divulgados pelo regulador esta semana e referem-se ao primeiro trimestre de 2026. O endividamento dos particulares — que inclui famílias, empresários em nome individual e instituições sem fins lucrativos — fixou-se nos 71,5% do rendimento disponível.
Há um ano, esse rácio era de 69,65%. No último trimestre de 2025, estava em 71,02%. A subida é lenta, mas constante. E inverte uma trajetória de desalavancagem que durava desde 2012.
176,8 mil milhões: o tamanho da dívida
Em valores absolutos, no final de março, as famílias portuguesas deviam 176,8 mil milhões de euros a bancos e outras entidades de crédito. São mais 13,8 mil milhões do que em março de 2025.
Este número representa 56,79% do Produto Interno Bruto (PIB) português. Está ainda longe dos 92,9% atingidos no pico da crise de 2013 — mas a curva mudou de direção e isso preocupa os técnicos do Banco de Portugal.
Crédito à habitação é o grande culpado
O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, foi claro. A subida do endividamento é puxada quase em exclusivo pelo crédito à habitação, que disparou 10,1% no mês de março face ao mesmo período do ano passado.
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Dois fatores explicam o fenómeno:
- O preço das casas continua a bater recordes em Lisboa, Porto e Algarve.
- Os portugueses estão a pedir empréstimos cada vez maiores para conseguir comprar.
Resultado: prestações mensais mais pesadas e prazos mais longos. Muitas famílias estão a contratar créditos a 35 e 40 anos para baixar a mensalidade.
Quanto sobra ao fim do mês?
Se uma família ganha 2.000 euros líquidos, este rácio significa que está a comprometer 1.430 euros por mês em crédito — habitação, automóvel, cartões. Sobram 570 euros para alimentação, transportes, contas da casa e tudo o resto.
É por aqui que a dor se sente. O cabaz alimentar continua a pressionar o orçamento, a luz e o gás não dão folga, e o pouco que resta para poupar evapora-se em juros.
Sinais de alerta a que deve estar atento
O Banco de Portugal recomenda que a taxa de esforço — peso das prestações face ao rendimento líquido — não ultrapasse os 35%. Acima disso, as famílias entram em zona vermelha.
Indicadores que mostram que está a perder o controlo:
- Usar o cartão de crédito para pagar contas básicas até ao fim do mês.
- Pedir um crédito pessoal para liquidar outro crédito.
- Sair do descoberto bancário só nos dias do ordenado.
- Adiar pagamentos ao Estado, à luz ou à água.
O que pode fazer hoje para travar a dívida
A boa notícia: ainda há margem de manobra. Algumas medidas práticas que estão ao alcance da maioria das famílias:
- Renegociar o crédito habitação com o banco — o Banco de Portugal obriga a propor soluções a clientes em dificuldade.
- Consolidar créditos pessoais num só, com prazo mais longo e prestação mais baixa.
- Cortar subscrições que se acumulam: streaming, ginásio, telecomunicações repetidas.
- Pedir o DECO ajuda gratuita ao Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado, através do portal da DECO.
O que esperar nos próximos meses
O cenário não deve mudar a curto prazo. A Euribor mantém-se em terreno positivo, os preços das casas não dão sinais de travagem, e o Banco de Portugal espera que o rácio de endividamento continue a subir até ao final do ano.
O alívio só virá quando duas coisas acontecerem ao mesmo tempo: descida sustentada das taxas de juro e travão real ao aumento do preço da habitação. Por agora, nenhum dos dois está à vista.
A conta é simples e dura: cada euro que entra em casa traz consigo uma fatia já comprometida. Olhar para o orçamento, cortar onde dói menos e negociar onde dá margem é a única forma de não deixar a dívida ditar a vida.

